O Sol Do Meu Outono | Degustação

Atualizado: 20 de set.

1 – Interferência
São Paulo, janeiro de 1994. Fim de mais um dia na vida de Roger, um divorciado de 45 anos que se preparava para deixar o escritório de sua agência de turismo naquele final de tarde de verão escaldante em São Paulo. Arrumou sua papelada, guardou as canetas no porta-canetas, abriu a gaveta de sua escrivaninha e pegou o celular, limpando o pequeno visor com um cotonete embebido em álcool isopropílico.
— Acabamos por hoje. Já estou suando só de pensar no calor que deve estar lá embaixo — disse Edu, o gerente do escritório, olhando pela janela do trigésimo terceiro andar do Edifício Itália.
— Calor de andar daqui até o Copan. São nem duzentos metros! Eu, sim, vou encarar o metrô lotado e ainda passar no supermercado.
— Não entendo você, Roger. Tem um carro com ar-condicionado e prefere vir de metrô.
— O trânsito de São Paulo é insano, os estacionamentos estão caríssimos e, se um manobrista arranhar meu carro, eu esgano! — justificou Roger com seu habitual perfeccionismo.
Edu riu e falou:
— Você é muito...
— Metódico? Maníaco? Eu sei. A Mágui vivia reclamando disso.
— Bem, bom fim de semana. E vê se descansa, porque segunda-feira vai ser infernal com os grupos de Carnaval.
— Problema seu. O gerente é você. Eu só verifico se estão trabalhando direito.
— “Verifico”?... Você espiona! — Edu deu um sorriso irônico.
Roger deu de ombros:
— Feche tudo. Eu já vou. Boa sorte no calor. Tente sobreviver aos duzentos metros.
Os dois riram, e Roger foi embora.
Na rua, como Edu havia previsto, a sensação térmica estava sufocante. Roger pegou o metrô na República, fez as baldeações necessárias e finalmente chegou à estação Brigadeiro. Passou no supermercado, comprou algumas coisas e caminhou até seu prédio.
Já em casa, exausto, colocou as compras sobre o balcão da cozinha, tirou a gravata e o paletó, ajeitando-os cuidadosamente no encosto de uma cadeira. Ligou a televisão e checou os recados na secretária eletrônica de seu telefone fixo:
— Puxa, três recados! Quem será?
A voz no telefone anunciou:
— Primeiro recado: — Oi, Roger. Mágui aqui. Tô ligando pra saber de você, mas é claro que seu celular está desligado. Depois falamos. Beijos! Ah, acredita que está nevando em Nova York?!
— Claro que está, é janeiro!
— Segundo recado: — Seu Roger, aqui é a Zilá. Quero saber se é pra mim ir no mesmo dia essa semana. Liga pra mim.
— “Mim” não conjuga verbo, Zilá! — resmungou Roger.
— Terceiro recado: — Roger, aqui é o Edgar. Cara, preciso de um grande favor. O Luc... se formou em música, está indo para São Paulo para uma audição importante, e pensei que ele poderia ficar na sua casa por uns dias. Me liga. Abração!
Roger bufou, andando pela sala com o telefone na mão.
— Um hóspede! Justo agora?! A minha casa virou pensão e eu não fui avisado?!
Pegou o telefone e tentou ligar para Edgar, mas estava ocupado. Desligou e quando ia tentar novamente, para sua surpresa, em vez de sinal, ouviu a voz de Mágui, sua ex-esposa:
— Nossa, nem tocou e você já atendeu. Isso é sinal que você ia ligar para alguém. Era pra mim?
— Oi, Magnólia! Não, não era pra você. Mas você não vai acreditar: o Edgar quer que eu hospede o Luc.
— Ah, o Luc! Que bacana, Roger!
— Como bacana. Eu não quero hospedar ninguém, muito menos um garoto!
— Mas o “garoto” já é homem, né? Deve estar com vinte e quatro pra vinte e cinco anos. Os anos não passaram só pra nós, querido.
— Ah... — Roger suspirou fundo. — Justo agora que estou perto das férias?! Não estou acostumado com ninguém na minha casa!
— Relaxa, querido, vai ser bom ter companhia jovem. E depois quantas e quantas férias o André foi passar com os padrinhos e os meninos em Porto Alegre? É uma forma de retribuir. Quem sabe isso te tira um pouco da sua rotina...
— Mágui, você não está me ajudando. O pior é que ele vem para uma tal de audição. Eu nem sei o que é isso!
Mágui riu.
— Audição é tipo um teste, Roger. Calma. Você fala pra ele como gosta das coisas na sua casa e pronto.
Roger suspirou:
— Tá, tá. Vou ligar pro Edgar e resolver isso.
Desligou e ligou para o amigo:
— Alô? Quem fala? ... Oi Edgar. É o Roger. Tudo bem?... Então... Peguei seu recado... Entendi... Sei... É verdade... Ah, é? ... Imagine! — disse enfático. — Problema nenhum! O Luc pode ficar aqui sim. Sem problemas... Mesmo. Fique tranquilo. Afinal eu sou quase um tio para ele, não é? ... Obrigado de quê? Você acha que eu negaria esse favor a você? ... Meu amigo, você até me ofende com este tipo de comentário, afinal de contas eu vou ter o maior prazer em receber seu filho aqui. Ed... nós somos quase irmãos! Ed... nós nos conhecemos desde pequenos! ... Pare de me agradecer, Ed... Ele chega no voo das 15 horas? ... Diga a ele que eu mesmo vou buscá-lo no aeroporto... Congonhas, né?... Não, pode ficar tranquilo, Ed! O Luc não podia estar em melhores mãos aqui em São Paulo... Imagina! Não tem de quê, Ed. Um abraço... Ok... Tchau... tchau...
Ele desligou o telefone e ligou para a ex.
— Então, quando ele chega? — perguntou Mágui, já adivinhando a resposta.
— Amanhã, às três da tarde.
— Sabia que você não diria não. Você tem um coração mole, Roger.
Roger suspirou. — Ai, Mágui. Ele era criança quando mudou daqui. Não posso largá-lo à própria sorte.
— Exatamente. E, quem sabe, ele não traz uma nova energia pra sua vida?
Roger desligou a chamada com um misto de irritação e resignação. Olhou para seu apartamento impecável, decorado em estilo vintage dos anos 70 e murmurou para si mesmo:
— Esse garoto que se prepare... Minha casa não é bagunça. Vamos ver quem vai se adaptar a quem.
2 – Chegada
Depois de assistir a duas comédias na noite anterior, Roger entrou em sono profundo e acordou tarde. Arrumou-se, preparou um brunch e comeu calmamente.
— Bem, agora são duas e pouquinho. O pentelho chega às três — disse para si mesmo, olhando o relógio. — Se eu sair em quinze minutos, devo chegar ao aeroporto a tempo.
Escreveu “Luca Rocha” em um pedaço de cartolina, pegou o cartaz e já ia saindo quando lembrou-se:
— Ah, esqueci de passar perfume! — Voltou para o quarto, borrifou sua fragrância favorita e se olhou no espelho. A campainha tocou antes que chegasse à porta.
— Ah, esse prédio que parece coisa de novela. Ninguém é anunciado antes de subir! Quem será? — Foi, apressado, atender à porta com o cartaz na mão.
Do lado de fora, um rapaz bonito, com cabelos alourados e cheios, um sorriso encantador e olhos azuis familiares, esperava. Ele vestia uma calça de linho creme bem folgada, uma camiseta branca fina e uma camisa de linho ocre claro, que misturava elegância e descontração. Roger o avaliou rapidamente, mas logo foi direto:
— Boa tarde, moço. Olhe, com certeza errou de apartamento, infelizmente não posso ajudá-lo porque estou de saída. Tenho que buscar uma mala no aeroporto. Com licença...
Virou-se para fechar a porta quando o rapaz sorriu e apontou para o cartaz em sua mão.
— A mala sou eu, tio Roger — disse Luc, farejando o ar. — Delícia esse perfume.
Roger ficou de boca aberta, como era seu costume sempre que se impressionava com alguma coisa. O Luc de agora não lembrava nem de longe o garoto que o chamava de tio.
— Luc!? É você?! Mas você não chegaria às três?! Menino, como você tá bonito! Quantos anos faz que eu não te vejo?
— Uns doze, acho. Mas o senhor não mudou nada. Tá igualzinho como eu me lembrava.
Luc o observava fixamente, o que deixou Roger um pouco desconcertado. Sem saber muito bem o que fazer, resolveu puxar assunto:
— Acabou chegando mais cedo?
— Sobrou vaga no voo anterior e a companhia me perguntou se eu queria vir nele, e eu topei — disse Luc, esperando que Roger abrisse a porta novamente. — E nós ainda vamos a algum lugar?
— Ah! Não! Desculpe! Fiquei tão atrapalhado que até esqueci de abrir a porta de novo... — disse, enfiando a chave na fechadura e convidando Luc para entrar. — Entra, Luc, fica à vontade.
Luc entrou e olhou ao redor o apartamento impecavelmente arrumado como um show room.
— Nossa, como é linda sua casa! Combina com você!
— Você gostou? — disse, orgulhoso de seu espaço. — Tudo garimpado e restaurado como era originalmente. Eu gosto desse estilo do início dos anos 70. Quebrou totalmente aquela caretice da década anterior.
— Eu gosto também, curto decoração.
— Que bom — disse olhando para ele com admiração. — Rapaz, como você mudou! Se eu cruzasse com você na rua, não ia reconhecer.
— Ah, mas eu o reconheceria. O senhor tá igualzinho! E continua bonitão.
Roger ficou desconcertado.
— Então, somos ambos bonitões. Mas, por favor, sem essa de “senhor” ou “tio”. Faz-me parecer mais velho do que sou.
— Combinado, Roger. — Luc riu, com naturalidade.
— Só Roger. É assim que meus amigos me chamam.
— Gosto mais também. Tem mais a ver com você. Tão jovem ainda...
Roger riu, ainda um pouco desconcertado com a presença vibrante de Luc.
— Ah, meu filho. Quem me dera. Eu já entrei no meu outono. Quase cinquentão, implicante e cheio de manias. Você vai ver... Você quer comer algo?
— Não, obrigado. Comi no avião. Na verdade, acordei muito cedo hoje e estou precisando de um descanso, se não for atrapalhar.
— Claro que não. Seu quarto está pronto. Segunda porta à direita no corredor. Tem o banheiro em frente, que será só seu.
— Obrigado, Roger. Estou muito feliz de estar aqui. Você me recebeu tão bem que já me sinto em casa. — disse olhando nos olhos de Roger. — Eu não sei como agradecer.
Roger estava agradavelmente surpreso com a educação e simpatia de Luc. E pensar que tinha sofrido tanto por antecipação...
— Garoto, eu tô impressionado de como você está diferente. Era tão retraído quando pequeno. Virou um homem! Bem que a Mágui falou...
— Ah, e como ela está? Que saudade dela. Ainda tem contato com ela mesmo depois do divórcio? Fiquei chateado quando soube que vocês se separaram. Lá em casa, todos nós ficamos.
— Acontece — respondeu Roger. — Mas ela está ótima! É uma figura, Luc. Ela está sempre bem. A gente se fala quase todo dia. Me liga pra me dar broncas e lições de moral sobre alguma coisa a toda hora. Está em Nova York, visitando o André... Mas vá descansar agora. Vamos ter bastante tempo para conversar depois.
— Não atrapalho mesmo?
— De forma alguma! Pode ir.
Luc foi para o quarto, e Roger, cuidadoso para não fazer barulho, foi para o seu. Enquanto assistia a um filme com fones de ouvido, o celular tocou. Tentando atender sem barulho, o aparelho caiu no chão. Ele se jogou para pegá-lo antes que acordasse Luc.
— Alô, Mágui? — cochichou.
— Por que você está cochichando?
— O Luc foi descansar. Acordou cedo, conseguiu o voo anterior e está exausto.
Mágui riu.
— Olha só, o anfitrião exemplar. E aí, como ele está?
— Mudado. Virou um homem bonito, falante e muito simpático. Acho que me sinto mais à vontade com ele do que esperava.
— Que ótimo. Você vai acabar gostando dessa experiência, Roger. Aproveite.
Após encerrar a ligação, Roger relaxou. Um leve sorriso escapou enquanto pensava:
“Talvez, a Mágui tenha razão. Pode ser que isso não seja tão ruim.”
Colocou os fones de volta e, finalmente, adormeceu.
3 – Conexão
Luca acordou quase às seis da tarde. Levantou da cama, pegou a toalha e foi para o banheiro tomar um banho para se revigorar. O barulho do chuveiro despertou Roger, que resolveu tomar uma ducha também. Entrou no banheiro da suíte e, como de costume, tomou sua ducha quase fria. Ao se enxugar e parar em frente ao espelho, lembrou-se do comentário de Luc mais cedo: “E continua bonitão...”
Roger sorriu de leve enquanto se analisava. Era um homem bonito, alto, com 1,82 de altura, tinha o corpo em forma, o tórax e as pernas cobertos por pelos escuros. Seu rosto, apesar das marcas sutis de expressão, ainda mantinha o ar confiante, agora emoldurado por uma barba aparada e um farto bigode que lhe davam um charme especial. Os cabelos curtos, com as laterais começando a ficar grisalhas, eram o lembrete discreto de que chegara à meia-idade. “Mas o garoto tem razão” — pensou. — “Ainda dou pro gasto.”
Vestiu-se rapidamente e, ao sair do quarto, deu de cara com Luc saindo do banheiro, enrolado na toalha de banho.
— Desculpa, Roger. Eu não gosto de me vestir no banheiro — disse Luc sem graça.
— Bom... Problema nenhum, se está bom pra você, pra mim, tudo bem — respondeu Roger, reparando no belo peitoral do hóspede.
Luc entrou rapidamente no quarto para se trocar. Quando saiu, encontrou Roger sentado no sofá, segurando um pacote. Roger estendeu-o para ele.
— Isso é pra você! Mas não é porque me incomodou você sair do banho de toalha — justificou-se. — Acho mais confortável usar um roupão. Não fica úmido como a toalha, não tem perigo de cair e, vamos combinar, é muito mais... classudo. Mas olha, você não precisa usar se não quiser.
Luc abriu o pacote, surpreso com a atitude.
— Puxa, Roger, que legal. Eu não tenho um desses, mas preciso perguntar... E quero que você seja muito honesto comigo. Você não se incomodou mesmo de me ver saindo de toalha do banheiro? Pode falar.
— Não. Pelo contrário! — respondeu, pigarreando. — Quero dizer, eu tinha um roupão extra no armário. Sempre tenho peças extras de tudo aqui em casa para num caso de necessidade não ser pego de calças curtas... Aí, pensei que você poderia gostar de ter um roupão. Só isso.
— Ah, se é assim, eu aceito o presente com o maior carinho — disse Luc, sorrindo e abraçando Roger inesperadamente. O calor do abraço o pegou de surpresa. Por um momento, Roger ficou sem jeito, mas sentiu algo reconfortante na sinceridade daquele gesto. — Puxa! Se o André me agradecesse assim por um presente sem estar bêbado, eu seria o pai mais feliz do mundo.
Luc riu:
— O André é distante com você? Ele não era.
Roger suspirou.
— Ele é afetuoso, mas do jeito dele. Talvez a culpa seja minha... Conforme o André foi crescendo, eu acabei repetindo o mesmo que meu pai fez. A demonstração física de carinho foi diminuindo, meio que afastando nós dois um pouco.
— Isso te incomoda, Roger?
— Acho que incomoda um pouco sim. Eu sentia falta do carinho físico do meu pai quando entrei na adolescência. Imagino que para o André seja parecido. O André é a pessoa mais importante do mundo pra mim. Eu não amo ninguém como amo meu filho. Mas até isso só disse pra ele quando estava de pileque. E ele só ouviu de pileque também. — Esboçou um sorriso meio desapontado.
— Que pena. Mas nunca é tarde. Pode tentar voltar a demonstrar carinho agora, mesmo quando conversarem ao telefone. Antes de desligar, termine a conversa com um “eu te amo, meu filho”. Será automático ele responder “também te amo”. Vai ficar natural vocês voltarem a ser mais carinhosos um com o outro sem precisarem estar de pileque — disse Luc, sorrindo.
Roger observou Luc enquanto ele sorria, dobrando cuidadosamente o roupão sobre o braço. Era curioso como aquele homem parecia tão diferente do menino da sua lembrança. Agora, havia algo cativante na maneira despretensiosa de Luc interagir, que fazia Roger desassociar o menino que conheceu na infância do homem que tinha se tornado. E algo nele o fazia se sentir, de alguma forma, mais leve.
— Luc, você vai fazer um teste para quê?
— Eu sou pianista, fiz faculdade de música, e surgiu uma oportunidade muito boa de fazer esse teste para tocar num musical que deve estrear daqui um mês mais ou menos, depois do carnaval. São Paulo e Rio têm as melhores oportunidades para músicos, cantores, atores, bailarinos que querem trabalhar. E eu resolvi que já era hora de parar de tocar em bandas de baile e shopping centers. Então, era ir para o Rio ou voltar para cá.
— Ah, então você pretende voltar a morar em São Paulo?
— Sim. Mas, olha, Roger, eu só vim para cá mesmo para tranquilizar meu pai. Se for te causar qualquer incômodo, eu posso arranjar um lugar pra morar e me mudo assim que encontrar. No teste devo conhecer outras pessoas de fora, e sempre tem gente querendo dividir casa.
— Eu não perguntei por isso, Luc.
— Ah, não?
— Não. Não vou mentir — disse Roger, estranhamente impelido a falar francamente com Luc. — Quando seu pai me ligou e pediu pra que eu hospedasse você aqui em casa, eu fiquei um pouco inseguro. Na verdade, fiquei puto, porque seu pai é um sacana. Ele não me liga há meses e de repente se lembrou que eu existo. — falou sério, mas em tom de brincadeira.
— Entendo. Acho que me sentiria assim também.
— Mas depois que você chegou hoje, e nós começamos a conversar, percebi que estou gostando de você ter vindo. Estou à vontade com você, parece que a gente se conhece há anos! Quer dizer, a gente se conhece desde que você nasceu. Mas eu só tinha a referência de você criança. Agora você... Enfim: duvido que nós tenhamos problemas.
— Tem certeza, Roger? Eu não quero ser intruso na sua casa. Se você quiser, eu posso ver um lugar essa semana mesmo.
— Eu tenho certeza, sim! Vamos combinar assim: se por algum motivo, um de nós não se sentir confortável na convivência com o outro, a gente abre o jogo e resolve. É natural que depois de um tempo você também queira ter um espaço seu e tal, aí nós voltamos a conversar. Pode ser assim?
— De qualquer modo, Roger, parece que o pagamento para os músicos é muito bom, então vou poder colaborar nas despesas. Não quero ficar aqui na cara de pau sem contribuir com nada. Se for o caso, você pode até fazer um valor de aluguel pelo quarto.
— Tá louco? Nem pensar. Seu pai é meu amigo de infância e eu conheço você desde que nasceu. O André foi muito para a casa de vocês passar férias quando eram pequenos. Não tem o menor cabimento te alugar um quarto.
— Mas podemos rachar as despesas, pelo menos...
— Isso a gente vê depois. Primeiro você faz seu teste, fica tranquilo, veja quanto vai ganhar, e a gente senta e acerta como vai ser, tá bom?
— Ótimo. Que alívio.
— Por que alívio? — perguntou Roger achando estranha a reação do rapaz.
— Porque também me dei bem com você. Eu sei que você é o mesmo, mas é tão diferente conversar como adultos com quem a gente conheceu criança. E me senti à vontade e bem-vindo com você. E achei tão legal você me dar esse roupão. Foi muito carinhoso da sua parte. Obrigado.
Roger abriu um sorriso discreto, mas a palavra “carinhoso” ficou ecoando em sua mente. Fazia tempo que não tinha uma atitude carinhosa com alguém sem se planejar primeiro. Pelo que lembrava, desde que o casamento com Mágui terminara. Talvez, sem perceber, tivesse construído uma casca em torno de si, como uma proteção contra as frustrações do mundo. Mas se sentiu bem em ser gentil com alguém novamente.
“Carinhoso”, ele pensou. A palavra parecia estranhamente reconfortante vinda de Luc. Será que ele tinha realmente mudado tanto a ponto de não perceber o impacto de seus próprios gestos? Ou talvez fosse Luc que, com sua franqueza e jeito leve, estivesse mexendo com algo que ele há muito tempo não permitia acessar.
— Eu acho que tivemos uma boa conexão. Talvez eu sinta falta do André e você me trouxe um pouco dessa sensação.
— Que bom, Roger. Fico feliz. É a primeira vez na vida que fico longe dos meus pais. Estar aqui com você, de certa forma, é um grande conforto pra mim. Roger sentiu um aperto leve no peito ao ouvir aquilo. Havia um toque de tristeza nas palavras de Luc, mas também algo que parecia genuinamente grato. Talvez a companhia dele faça bem a nós dois, pensou.
— Então, estamos combinados, Luc. Mas e aí? Quer sair? Dar uma volta, jantar ou tomar um lanche em algum lugar, beber alguma coisa?
— Pode ser. O que você quiser fazer para mim tá ótimo.
— Então tá bom. Eu já estou pronto, e você?
— Minha roupa tá legal assim?
— Jeans e camiseta é sempre perfeito.
Vamos parar para comer alguma coisa, depois damos uma volta de carro pra você rever São Paulo e depois resolvemos se esticamos a noite ou voltamos pra casa.
— Pra mim tá ótimo! Mas eu pago o jantar!
— Nem a pau! Hoje eu pago. Você ainda está desempregado. Pelo menos até a semana que vem.
— Mas eu trouxe dinheiro. Posso...
— Mas que garoto insistente! Tô falando que hoje é por minha conta. Vamos fazer assim: hoje eu faço a programação e pago. Na próxima vez, você resolve a programação e paga. OK?
— Fechado, tio! — disse brincando.
— Tio é sua avó! — respondeu Roger, rindo.
Luc riu, e por um instante, o som do riso preencheu a sala de forma quase mágica. Roger observou o rosto iluminado do rapaz, sentindo algo que não conseguia nomear. Não era desconforto, tampouco algo estranho. Era apenas... bom.



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