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Quando Um Certo Alguém | Degustação

Foto do escritor: JR Thomas
JR Thomas
20 de set.
10 min de leitura

1 - Verão de 1984

 

Santos, posto 2, verão de sol escaldante, o bronzeado do corpo se destacava na sunga verde-limão. Naquele dia, ele não estava sozinho. Sílvio, seu melhor amigo, estava com ele. O short largo de nylon vermelho, um palmo acima do joelho, realçava sua magreza e o tom branco amarelado da sua pele. Só de olhar já dava para perceber que ir à praia estava longe de ser seu passatempo predileto. Sílvio era uma "figura", uma "peça rara" como se costumava dizer na época sobre as pessoas que, excentricamente, fugiam do comum.

Faltava pouco para as três horas da tarde e lá estavam os dois amigos jogando frescobol à beira do mar, curtindo a água fresca que molhava-lhes os pés e aquela mistura do cheiro da maresia que vinha do mar e da ''outra" maresia que vinha de um grupo de rapazes que dividia um "baseado" a uma distância segura das bolas perdidas e descontroladas que escapavam dos dois "atletas".

— Um bom jogo de frescobol é o melhor jeito de não criar barriga e bronzear o corpo por igual — dizia Julinho, que cronometrava meticulosamente o tempo que cada um deveria ficar de costas para o sol.

Mas naquele dia, o calor estava beirando os trinta graus, e Sílvio resolveu que sua dedicação ao esporte praiano sob o sol escaldante já estava de bom tamanho.

— Ah, chega, Jules! Cansei, cansei, cansei! — falou com seu jeito debochadamente intolerante, entregando a raquete nas mãos do amigo. — Quero beber água, quero comer, quero ir embora, quero tomar banho, quero tirar uma longa soneca embaixo do ventilador. 

— Puxa, desculpa por ter estragado sua existência te trazendo na praia nesse dia maravilhoso, cheio de gente linda, bronzeada e de bem com a vida! Posso tentar me afogar se você quiser!

— Na boa, Julinho... Eu adoro você, cara, mas eu não venho à praia nem com a minha mãe. Eu só saí de casa hoje, nesse INFERNO desse calor insuportável pra te fazer companhia porque sabia que você não ia querer vir sozinho!

— Eu sei, "Silvius Augustus" — falou satisfeito com a consideração abnegada do amigo.

— Eu sei que pra você praia é quase uma tortura. Eu tô brincando. Mas valeu mesmo ter vindo comigo. Eu não queria vir sozinho.   

— Jules, posso te perguntar uma coisa? — perguntou, estranhando sua constante necessidade de querer companhia pra fazer as coisas. — Por que você não gosta de sair sozinho?

— Primeiro, porque de todas as minhas possíveis companhias, você é o titular. É meu melhor amigo, me entende mais que qualquer um e eu me divirto muito com essa sua implicância de velho ranzinza com tudo. Segundo, quando eu saio com você, eu me sinto mais seguro. Você sabe que eu não gosto de sair sozinho. Resultado da minha adolescência problemática que você já sabe como foi.

— Eu vou tomar a parte do velho ranzinza como um elogio, porque na minha opinião isso se chama bom senso. Agora, quanto à sua adolescência problemática... já foi. Acabou. Você é um adulto agora. Não vai acontecer nada com você. Tá tudo na sua cabeça. — olhou para ele com carinho. — É só isso mesmo?

— É. Você sabe que eu não tenho segredos pra você.

— Você sabe que pode dividir comigo qualquer coisa, né? — falou olhando nos olhos de Julinho.

— Sei. Eu fiz cocô mole hoje. — brincou para quebrar o clima sentimental.

— Jules... reparametrizando, você sabe que pode dividir comigo QUASE qualquer coisa. Seu nojento!

— Tô zoando. Eu sei que posso, você é meu irmão postiço.

— Ah, pode apostar. Eu adoro meu irmão, mas esse entrosamento legal só tenho com você. Tô vindo até pra praia! — Olhou para os lados como se estivesse apavorado. — O que eu tô fazendo aqui?!

— Me fazendo companhia e tirando esse tom "amarelo-escritório" da pele.

— Ah, é! Tô bronzeado já?

— É... Mais pra rosinha... Mais um mês de sol e vai ficar perfeito.

— Ah, só porque você quer, seu puto!

— Vamos sair hoje à noite? As férias estão acabando. Hoje é sábado.

— Hirondelle? Pizza e chopp?

— Hum! Legal! 

— Combinado! — disse, juntando as coisas para ir embora. — Você vai ficar mais um pouco?

— Claro. O dia tá muito lindo e muito quente pra ficar assando dentro do apartamento, prefiro fritar na praia — disse ajeitando a viseira sobre o rosto.

— Tá bom. Te espero à noite. Passa lá em casa.

— Falou. Eu te pego. E vê se vai pela sombra!

— Ah! Pode ter certeza disso! — disse resmungando. — Ai, esse inferno desse sol...

Julinho se acomodou na cadeira, deitou mais o encosto pra poder "fritar" melhor enquanto curtia a brisa fresca.

2 - Um Ano Antes

 

Vamos voltar um ano no tempo para saber como começou a amizade entre os dois. No início de 1983, os dois rapazes ingressaram no primeiro período da "Faculdade de Artes, Design e Arquitetura de Santos", no litoral sul paulista. Na FADAS[1] os dois primeiros semestres, chamados de períodos, eram os das matérias básicas para os três cursos: artes plásticas, desenho industrial e arquitetura. No final do segundo semestre, chamado de segundo período, os alunos confirmavam sua opção feita no ato da inscrição para o vestibular, ou poderiam trocar de curso caso quisessem no início do terceiro período, quando as turmas se dividiam.   

A princípio, Julinho escolhera o curso de Artes Plásticas de quatro anos e Sílvio o de Arquitetura que duraria um ano a mais. Socialmente falando, os dois eram bem diferentes. Julinho era mais retraído, e no primeiro mês de aula havia feito amizade com várias garotas da classe e conversado por cima com alguns rapazes. Já Sílvio, muito mais extrovertido, no mesmo período já tinha novos conhecidos nos três cursos em quase todas as turmas.

O prédio da faculdade, que vamos conhecer aos poucos, além das salas de aula comuns, laboratórios específicos para algumas matérias e anfiteatro, tinha também alguns lugares preferidos e mais usados pelos alunos, um deles ficava no último andar. Era "o ateliê", um imenso vão livre sustentado pelas enormes colunas espalhadas ao redor do edifício e que tomava toda a extensão do andar lotado de mesas de desenho destinadas aos alunos de todos os períodos e de todos os cursos. Ali era, sem dúvida, o lugar mais frequentado de todos. Lá aconteciam também aulas, assembleias, intervenções artísticas, performances, sonecas e as famosas "noites de virada" que aconteciam durante o ano todo e que no final do semestre, tomavam praticamente todas as centenas de mesas disponíveis do espaço comum com alunos ocupados em terminar trabalhos, fazer reuniões e finalizar projetos para nota.

Foi no início de uma dessas noites de virada que os dois conversaram pela primeira vez.

— Lá vem o Sílvio — Rita comentou com os colegas Julinho e Deise. — Ele já chega chegando! Para um pouquinho em cada canto. Fala com todo mundo

— Eu adoro o Sílvio — disse Deise rindo. — Ele é uma figura, o maior barato. Em um mês de aula, ele já tá mais popular que nota de mil cruzeiros.[2] 

— Ele parece ser legal mesmo. Mas nós nunca conversamos. Eu não sei chegar assim já batendo papo com todo mundo, acho que sou meio tímido pra isso — disse Julinho. — Acho que eu tenho um pouco de inveja dele.

— Ah! Tímido só se for com os meninos, né, Julinho? Porque quase todas as meninas da classe já são suas amigas. Eu tô só observando. Já tem meninas interessadas em você, sabia? — comentou Rita com uma indireta. — Tem duas aí apostando qual vai ficar com você primeiro.

— Ah, é? Até parece que eu tô com essa bola toda. Nossa! Vocês são muito fofoqueiras — comentou rindo.

— Sério, Julinho. A mulherada gosta dos rapazes de família. E os mais tímidos são muito mais interessantes que os populares — disse Deise, provocando o colega.

— Então, empatou! Eu também gosto de garotas tímidas. Zero chances para as assanhadas atiradinhas de plantão como vocês — respondeu ele brincando.   

A risada dos três atraiu a atenção de Sílvio que chegou por trás das duas colegas, colocando os braços nos ombros das meninas.

— Como vão as duas meninas mais gatas da turma?

— Estamos bem. A gente tava falando de você agora mesmo — respondeu Rita, segurando a mão dele que estava sobre seu ombro.

— Falando bem, eu espero. Era bem ou era mal, Júlio? — perguntou para Julinho como se já o conhecesse há tempos.

Julinho se surpreendeu com a naturalidade com que o colega puxou assunto com ele. Mas se sentiu à vontade para continuar a conversa no mesmo tom.

— Basicamente, elas estavam comentando como você já está popular na faculdade inteira e eu não — contou rindo. — Acho que você é mais simpático que eu.

— Ah, que é isso? Você é supersimpático com todo mundo. Tá sempre sorrindo. É que você é mais na sua, não é? Sabe que eu nem sei como a gente nunca conversou antes!? Você tem uma cara boa, um astral legal. Dificilmente me engano. Eu provavelmente sou mais cara de pau e desinibido que você. Mas eu te ensino.

— E mais escandaloso, né, gatinho? — comentou Deise. — Quando você passa na portaria lá embaixo, a gente já ouve sua voz aqui em cima.

— Faz parte do meu charme — respondeu Sílvio. — Mas, olha, Julinho, as meninas gostam pacas de você, viu... É unanime.

— Olha aí! Te conheceu há dois minutos e já ficou íntimo, já tá te chamando de Julinho! — disse Rita, dando uma cutucada no amigo cara de pau.

Julinho gostou do jeito despachado de Sílvio. Nunca nenhum outro rapaz havia chegado nele de forma tão legal. Ele simpatizou muito com o colega.

— Eu achei legal. Eu queria ser despachado assim como você, Sílvio. Eu demoro tanto pra quebrar o gelo que quando me sinto à vontade...

— O gelo já derreteu! — Sílvio concluiu. Todos riram. Julinho concordou:

— É mais ou menos isso.

— Julinho, me diz uma coisa, você gosta de futebol? — perguntou fingindo animação, pois ele mesmo nunca fora um fã do esporte.

— Xi, Sílvio... Odeio! Só assisto na Copa. Já tenho até atestado médico pra não ter que fazer Educação Física e ser obrigado a jogar futebol.

— Pronto! Você vai ser meu melhor amigo! Também acho o futebol uma chatice.

— Nossa! Você acaba de me fazer recuperar um pouco do meu resto de fé na humanidade!

Todos riram e o papo se estendeu noite adentro enquanto eles trabalhavam um pouco, paravam pra um cigarro, aí trabalhavam mais um pouco até quando o dia ia nascendo e a maioria dos estudantes voltava para suas casas para descansar um pouco até a hora de voltar para as aulas às duas da tarde.

***

Não muito perto, dois novos personagens observavam o movimento dos alunos, quando um deles chamou a atenção do outro.

— Guel, olha ali e me diz se ele não é a coisa mais fofa que você já viu — disse Tuca olhando para Julinho. — Acho que eu vou me apaixonar...

— Qual dos dois? Ambos são bonitinhos. Aquele mais magrinho meio estridente eu já conheço de ouvir falar. É o "mister simpatia" da turma rei da comunicação. Já conhece Deus e o mundo. Não faz meu tipo. E é hétero. Aquele sentado em cima da mesa em posição de lótus, de calça mais larga que parece que fugiu da oitava série é mais bonitinho. Mas parece meio cheio de si.

— É exatamente dele que eu estou falando. Desde que eles entraram, eu bati os olhos nele e disse: é esse! E aí venho "namorando" ele de longe. Sem ele perceber, claro.

— E se eu te conheço bem você vai continuar assim por um tempão. Te adoro, bicha, mas você é devagar! Se eu deixasse uma tartaruga pra você cuidar, quando você percebesse, ela já estaria no alto da serra chegando em São Paulo a pé.

— Besta! E não me chama de bicha! — falou Tuca, que detestava a mania de Guel de falar no feminino.

Quando Guel ia retrucar foram surpreendidos por Pedro, um colega do sétimo período de artes plásticas.

— Do que estamos conversando? — perguntou Pedro interessado em se inteirar do assunto.

— A gente tava... — dizia Tuca, mas foi cortado por Guel, que nunca simpatizara com o colega.

— A gente tava falando que tem gente por aqui que adora pegar o bonde andando e querer sentar na janelinha. Em outras palavras, não é da sua conta, Pedrita.

— Escuta, Guel... o que eu fiz pra você, hein? Você é tão estúpido comigo — reclamou Pedro.

— Imagina. Se eu fosse estúpido com você, eu te responderia que o que você fez pra mim foi nascer. Mas eu disse isso? Não — respondeu com ironia, rindo do colega.

— E como eu sou uma pessoa educada, eu diria "Desculpa eu ter nascido e vai tomar no seu cu!". E sairia logo pra não ouvir outra grosseria — devolveu Pedro, que saiu apressado pra longe da dupla e foi sentar na outra ponta do salão.

— Deus te ouça, bicha podre — disse Guel olhando para Pedro, que já estava longe.

Tuca riu da cara de Guel.

— Você podia dormir sem essa. Mas você foi grosso mesmo com ele.

— Ai, esse cara é chato, Tuca! Entra ano e sai ano e ele continua um boçal. E outra... Te livrei de uma boa. Se o Pedro desconfiar que você tá paquerando esse garoto novo, ele vai dar um jeito de jogar merda no seu ventilador.

— Por quê?

— Eu não digo que você é lento? Por quê? Porque ele tá a fim de você, Tuca! Você nunca percebeu?

— Não! Baseado em que você chegou a essa conclusão?

— Honey... Eu sou vivida! Quando vocês saíram do ginásio gay, eu já era pós-graduado em pegação no Golden Gate Park, em San Francisco!

— Eu sempre me arrependo de perguntar — disse Tuca torcendo o nariz. Não precisa me contar os detalhes...

— Tá bem, "mimosa pudica". Mas é sério. O Pedro tá a fim de você. Não deixa ele saber da sua paquera porque ele vai dar um jeito de estragar o lance.

— Bom, eu não sou tão vivido quanto você, então vou seguir seu conselho. Se bem que ele não é meu tipo — disse olhando Julinho disfarçadamente com um leve sorriso nos lábios.


[1] Faculdade fictícia onde a história se passa.

[2] Vale relembrar que nessa época esse dinheiro não comprava quase nada, dada a inflação absurda que existia no Brasil. A mensalidade de uma faculdade como a da época girava em torno de quase um milhão de cruzeiros e subia mensalmente.

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