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Quando Um Certo Alguém 3 | Degustação

Foto do escritor: JR Thomas
JR Thomas
18 de set.
13 min de leitura

Atualizado: 20 de set.

1 – Num Novo Tempo

 

Agosto de 1986. Na noite do dia 11, Tuca ajustava os detalhes finais para o jantar de três anos de namoro com Julinho. O aroma da carne assada recendia pelo ambiente. A mesa estava posta com perfeição, em todos os detalhes: pratos, talheres, taças e guardanapos de tecido.

Julinho chegou pontualmente com uma caixa caprichosamente embrulhada. Tuca estava especialmente bonito aquela noite: calça de sarja e camisa preta, óculos e um avental cinza-chumbo que lhe davam um charme muito especial. Julinho também caprichou no visual, vestia uma calça preta de sarja e uma camisa lilás bem clara. O cabelo cheio e cacheado, recém-aparado, emoldurava seu rosto corado e lhe dava um ar de eterno adolescente.

— Nossa, assim, eu vou continuar apaixonado o resto da vida — disse Tuca, puxando-o para um beijo.

— Como é que está o cozinheiro mais gostoso do pedaço? Você tá uma graça com esse avental, chef!

— Não me desconcentra, porque eu ainda não acabei. E elogio demais pode me fazer queimar alguma coisa.

Julinho deixou o presente sobre o aparador, foi até a cozinha e o virou para ficarem cara a cara.

— Eu ainda sou louco por você.

— E eu por você.

— Posso ajudar em alguma coisa?

— Abre o vinho pra nós.

— É pra já.

Sorriu sozinho, lembrando-se de quando tudo começou — das conversas atravessadas na faculdade, do ciúme bobo que quase os afastou, do plano "Frangay" que parecia coisa de filme, do frio na barriga antes de conhecer a família de Tuca. Três anos depois, ainda sentia o mesmo arrepio toda vez que Tuca o olhava assim, por cima dos óculos, como quem diz: "você é meu lugar seguro".

— O jantar tá pronto. Só faltam duas coisas.

— O quê?

— Um beijo e um disco na vitrola, num volume que dê pra gente ouvir e conversar sem gritar.

— Acho que eu posso resolver os dois problemas — disse Julinho, dando o beijo e indo até o som para escolher um LP.

Escolheu Bem Bom, da Gal Costa, e colocou pra tocar enquanto Tuca servia a mesa e acendia velas.

— Puxa, você caprichou mesmo!

— A gente merecia um jantar desse em Paris ou Nova York, mas eu fiz o meu melhor.

— Hoje eu não mudaria nada. Tá tudo perfeito. Eu te amo!

— Eu quero ficar velhinho com você. Será que a gente consegue?

— Deixa eu pensar... — Julinho fez uma careta engraçada. — É... acho que sim.

— Ah, é, seu safado? Precisa pensar? — disse, abraçando o namorado.

— Precisa ver se você vai me aguentar. Meu pai sempre fala que o que eu sei fazer melhor é reclamar. Imagina quando eu ficar velho?!

— Você nunca vai ficar velho pra mim. Seus olhos alegres nunca vão envelhecer.

— Diz isso pra minha miopia.

Tuca sorriu.

— A Gal tem razão: "você me dá sorte, meu amor". Agora vamos jantar?

— Vamos, eu tô morrendo de fome.

Naquele instante, tudo que importava estava ali — na luz das velas, no riso fácil e no olhar apaixonado dos dois.


2 – Uma Aventura Tragicômica

 

Enquanto o jantar romântico de Tuca e Julinho, com direito à luz de velas, acontecia no apartamento em Santos, Guel, Caio e Pedro chegavam a São Paulo para uma noite fervilhante na boate.

— Eu gosto dessa história de vir pra São Paulo pra dançar — disse Caio, animado.

— Pedro, tem certeza de que tem boate aberta hoje? — perguntou Guel.

— Claro! — respondeu Pedro, cheio de confiança. — São Paulo não fecha nunca! Essa cidade abre tudo todo dia.

— Gente... — Caio franziu a testa. — Eu não tinha me ligado que hoje era segunda.

— E daí? — retrucou Pedro, firme. — Eu sei do que tô falando.

Meia hora depois, o trio já tinha passado por cinco boates — todas de portas fechadas. No banco do passageiro, Guel cruzou os braços e soltou a ironia:

— "Eu sei do que tô falando!", né?

Pedro revirou os olhos, tentando não dar corda. Caio, no banco de trás, tentava colocar panos quentes.

— Bom, vamos pensar positivo. Pelo menos mudamos de ares.

— Mudamos de ares o escambau! O Pedro vai ter que abrir uma boate pra gente agora. Não posso voltar pra Santos. O Tuca e o Julinho estão comemorando aniversário de namoro. Não vou empatar a foda dos dois.

— Calma, Guelzito. Eu vou achar um lugar pra gente ir.

— Às onze da noite? Nem restaurante vai estar aberto a essa hora numa segunda! E me chamar de "Guelzito" é privilégio do Julinho.

Depois de mais três tentativas frustradas de encontrar um restaurante, acabaram numa lanchonete da Avenida Ibirapuera.

— Você se redimiu, Pedro. Esse lanche tá ótimo e o milk-shake é maravilhoso... mas eu queria mais que isso — resmungou Guel.

— Ah, não seja implicante. Se a gente não estivesse aqui, você estaria em Santos com uma tigela de pipoca no colo, enfiado num moletom, meia de lã e polainas[1] assistindo TV!

— Eu nem gosto de TV... E como você sabe que eu uso polainas?

— É a sua cara, meu caro!

O riso de Caio veio primeiro, leve, quase infantil. Logo Pedro e Guel estavam rindo também, até as lágrimas, chamando a atenção dos outros clientes.

— As pessoas vão achar que a gente fumou maconha — disse Pedro, tentando parar de rir.

— E que estamos no auge da larica — completou Caio.

— Mas eu ainda queria fazer algo diferente — insistiu Guel.

— Eu tenho uma ideia! Por que não vamos pra um motel? — sugeriu Pedro.

— Nós três? Depois de tanto tempo que a gente se conhece? Não vai rolar.

— Não pra transar, sua doida! Um quarto com sauna, piscina aquecida… Um spa até amanhã cedo.

— Eu não acho transar uma má ideia, não — disse Caio, com uma cara de sacana.

— Ah, tá... Mais uma maluca! — disse Guel.

— Será que a gente entra em três?

— Pagando, qual é o problema?

— Eu topo. Dá inclusive pra gente ligar o som e dançar. Um quarto assim vai ter até pista de dança — disse Caio, animado. — Vamos, Guel.

— Só se a gente pedir uma champanhe ou um vinho pra beber. Isso tudo vai nos custar os olhos da cara. A gente vai voltar falido pra casa mesmo... então vamos beber.

— Vou pedir a conta e a gente vai — disse Pedro.

Chegaram ao motel. Pedro pegou as três carteiras de identidade e ofereceu à recepcionista — muito maquiada, com óculos de gatinho e um coque de cabelo cacheado "desconstruído" no alto da cabeça — que, depois de olhar para os três homens dentro do carro, disse, mascando seu chiclete que passeava de um lado para o outro da boca semiaberta:

— Nós não aceitamos três num quarto.

— Mas nós queremos a melhor suíte que você tiver, com piscina, sauna, hidromassagem e pista de dança... — disse Pedro, impaciente.

— São normas da casa. Sinto muito.

— Mas nós não viemos transar. Só queremos fazer um spa, matar o tempo e dormir até amanhã.

— Querido, por mim, vocês podiam até pintar o quarto. Não é problema meu. Mas são as normas que o dono do motel estabeleceu.

Guel, já com o saco cheio, desceu do carro e foi até a janelinha da moça.

— Olha aqui, pergunta pro dono dessa espelunca se ele tá rico demais pra dispensar cliente numa segunda-feira! E diz pra ele que eu vou meter o pau nesse lugar na minha coluna da Gay People Magazine!

Guel voltou para o carro e Pedro deu ré, muito contrariado.

Caio ria discretamente no banco de trás do carro. Os dois olharam pra ele, indignados.

— Do que você tá rindo, Caio? — perguntou Guel.

— O que você espera do dono de um motel que contrata uma "decepcionista" como aquela? E que revista é essa Gay People Magazine que eu nunca ouvi falar?

— Eu inventei agora pra fazer pressão.

Pedro e Caio se entreolharam e riram mais ainda.

— Acho que eu devia ter ficado com a pipoca, a TV e as polainas, sabe...

— Vamos ser mais inteligentes. Caio, você aí atrás, deita no chão do carro quando a gente estiver chegando no próximo.

— Eu não vou deitar no chão do carro! — protestou Caio.

— Tá limpinho. E com os bancos altos, não vai dar pra ver você da recepção. É só ficar quietinho.

— Tá bom. Eu deito no chão do carro.

Chegaram ao segundo motel, e Pedro entregou ao rapaz da recepção as duas identidades, dele e de Guel. O homem abaixou pra ver Guel melhor no banco do passageiro.

— Olha, moço. Não vai dar, não.

— Como assim não vai dar, não?

— A gente não aceita "ómissexual".

Pedro tentou ser educado, mas Guel disparou:

— Pois diga pro seu patrão enrustido parar de ser ignorante! E não é "ómissexual"! É homossexual!

— Que nem o sabão em pó? — perguntou o homem, admirado.

Guel bufou, revirou os olhos e deu tapinhas no ombro de Pedro:

— Tira a gente daqui, por favor...

Caio levantou do chão, rindo de novo.

— Vamos tentar o terceiro motel ou vamos pra casa?

— Sinceramente, não sei — respondeu Pedro, desanimado.

— Faz o seguinte: Guel, vem você pra trás e a gente tenta o terceiro motel.

— Ah, você tá insinuando que o problema sou eu, Caio?

— Não. Eu tô afirmando que vamos parar num hospital com você infartado se algo mais der errado, porque você vai surtar, eu vou rir, você vai ficar puto e vai passar mal. Eu tô preservando sua saúde.

Guel, bufando, reclinou o banco para trás, passou por cima de Caio e se acomodou no banco traseiro. Caio foi para o banco da frente.

Chegaram ao terceiro motel.

— Esse aqui é bem legal. Tomara que não criem problemas.

— Pedro, já fala o tipo de quarto que queremos, assim eles já ficam sabendo que estamos dispostos a gastar.

— Bem pensado.

Desta vez, foram recebidos por um rapaz de sorriso aberto e olhar cúmplice. Pedro nem deu chance para a negativa:

— Boa noite. Queremos uma suíte que tenha tudo: piscina, pista de dança, sauna, hidro... A melhor que você tiver.

O atendente arqueou as sobrancelhas e sorriu de canto, como quem dizia: "Ah, entendi."

Pedro entregou as duas identidades para o recepcionista.

O rapaz conferiu, baixou a cabeça para ver Caio melhor e comentou:

— O senhor é bem mais bonito pessoalmente do que nessa foto, Seu Miguel.

— Eu vou dar na cara dessa bicha! — murmurou Guel, do banco de trás.

O recepcionista, excessivamente simpático, entregou a Pedro a chave do quarto e um saquinho com vários envelopes de camisinha.

— A suíte é a 37, e isso aqui é cortesia para o senhor. Só para clientes habituais! Hoje em dia a gente tem que se cuidar!

Pedro agradeceu, fechou o vidro do carro e foi procurar a suíte.

— Nada como lembrar os clientes que os tempos estão difíceis antes de entrarem no quarto pra transar... Ainda bem que não viemos aqui pra isso — disse Guel, voltando a se ajeitar no banco traseiro.

Pedro estacionou em frente à suíte. O quarto era um exagero em forma de hospedagem: piscina aquecida soltando vapor, sauna já ligada, globo espelhado girando no teto, pista de dança iluminada por luzes de neon e uma cama king size com lençóis que pareciam mais caros do que o aluguel de um mês em Santos.

— Eu tô me sentindo num clipe da Gretchen — disse Guel, já largando os sapatos na porta.

— E eu num comercial de perfume caríssimo — Pedro comentou, girando devagar para ver tudo.

— Pois eu tô me sentindo num parcelamento de cartão de crédito — completou Caio, já imaginando a fatura.

Pedro abriu a champanhe importada que veio como "cortesia" — certamente já incluída no custo da suíte sofisticada...

Brindaram, beberam, riram, dançaram sob o globo, cantando junto com as músicas que tocavam — com mais entusiasmo do que afinação. Mergulharam na piscina, usaram a sauna, a hidro, tomaram banho e caíram os três na cama, alterados pela champanhe e um pouco sem noção dos limites pré-estabelecidos.


3 – Batendo na Mesma Tecla

 

Após a sobremesa, Julinho pegou a caixa de presente que tinha deixado sobre o aparador e entregou a Tuca, que a abriu com delicadeza e dela tirou um belo suéter de tricô feito à mão.

— Nossa, que blusa linda! Onde você comprou isso? Caramba, acho que é o agasalho mais bonito que eu já tive!

— Arte da sua sogra. Eu pedi pra ela fazer pra você.

— Puxa, a Marta é uma tricoteira profissional. Eu adorei, Ju. Mas o que você falou pra ela pra ela tricotar isso pra mim? Nem é meu aniversário — disse, experimentando a blusa.

— Ah, eu joguei o verde pra colher o maduro. Falei pra ela que estava frio e que você não tinha nenhuma malha bonita, só moletons. Aí ela mandou eu escolher a cor, e no olho, ela tricotou. E não é que ficou perfeita?

Tuca o abraçou e o beijou:

— Eu vou usar até gastar. Amei! Também tenho uma coisa pra você — disse, colocando a mão no bolso. — Deixa eu ver sua mão direita.

Julinho estendeu a mão e Tuca colocou em seu dedo uma bela aliança de três aros de prata igual à dele.

— Não fui eu que fiz, mas achei que precisávamos de um símbolo que demonstrasse o nosso relacionamento.

— Eu amei, Tutu! É lindo! Sempre gostei da sua igual a essa. Como você acertou o tamanho?

— Medi com um barbante numa noite que você estava dormindo pesado.

Julinho deu-lhe um beijo apaixonado e demorado.

— Você é incrível. Eu não sei o que eu fiz pra merecer você. Te amo muito.

— Eu não. Te amo só um pouquinho assim — disse, indicando o tamanho com os dedos.

— Eu sei que não é verdade, mentiroso.

Tuca pegou Julinho no colo e o deitou no sofá.

— Fica aí. Eu já volto.

— Onde você vai?

Tuca foi rapidamente ao quarto e voltou com um cobertor e um travesseiro, para deitar com ele no sofá.

— Fui buscar conforto pra nós ficarmos abraçados no sofá ouvindo música — disse, acendendo o abajur e apagando o lustre sobre a mesa de jantar.

— Tuca, eu não vou poder dormir aqui hoje.

— Tudo bem. Mas podemos ficar um pouco juntos, não?

— Claro, mas por volta de uma da manhã, vou embora. Hoje eu não achei uma desculpa pra ficar por aqui.

— Então vou aproveitar ao máximo o tempo — disse, abraçando Julinho.

— É tão bom ficar assim — disse Julinho, largado no abraço de Tuca.

Tuca pensou um pouco e disse:

— Ju, eu não quero pressionar você, mas será que não seria legal a gente conversar com seus pais sobre nós? Três anos já...

— Puxa, volta e meia você insiste nesse assunto, Tuca. Você não quer me pressionar, mas eu me sinto pressionado. Você sabe que eu não gosto de falar sobre isso.

— Julinho, eu entendo, mas poxa, o Júlio e a Marta estão carecas de ver a gente junto pra tudo. Nenhum de nós aparece com uma namorada. Você não acha que eles já entenderam tudo e estão só respeitando a sua privacidade?

— Claro que não! Eles acham que somos amigos.

— Ju, é ilusão sua. É evidente que eles sabem. Só você insiste em negar. Eu queria tanto poder ficar aqui sem desculpas, sem inventar pretextos... e quem sabe até morarmos juntos.

— E você acha que eu não quero?

— Nem sei mais o que eu acho. Mas é você quem vai ter que quebrar essa barreira. Eu não posso falar com eles por você.

— E nem eu quero isso. Mas eu não vejo por que todo mundo tem que saber de tudo! — disse, sentando-se no sofá de frente para Tuca.

— Que todo mundo, Julinho? Estamos falando dos seus pais! É nítido que eles gostam de mim. Tá na cara que já sabem de nós. É só falar a verdade e acabar com a sombra dessa mentira! Nós não merecemos isso. E nem eles.

Julinho se irritou:

— Mas que ideia fixa você tem com isso! Eu não quero que eles mudem a visão que têm sobre mim.

— Julinho, não vai mudar nada! A gente não tá enganando nem o zelador daqui do prédio. Se bobear, nem a Aninha, com nove anos! Pelo amor de Deus!

Julinho respondeu, ainda mais irritado:

— Tuca, conheço meus pais.

— Será que conhece mesmo? Ou será que você não quer que eles vejam você como adulto?

— Do que você tá falando?

— Julinho, você já tem 23 anos. A sua vida na sua casa é a mesma de quando nos conhecemos: superprotegido, o filhinho da mamãe, que ela cuida como se fosse um adolescente. Preferido entre os dois filhos... É isso que você não quer perder? O posto de filho preferido?

— Puxa, você tá me ofendendo.

— Não estou falando pra te ofender. Mas o tempo tá passando. Desde que eu te conheci, eu faço planos que não se concretizam. E eu aqui, sonhando em morar com você, em ter uma vida de casado.

— Mas não tá bom do jeito que tá?

— Julinho, não é possível que eu não esteja sendo claro. Eu tenho 28 anos. Não quero emplacar os trinta inventando desculpas. Me sinto mal mentindo pros seus pais. Você não?

— Eu estou omitindo, não mentindo!

— Isso é mentira sim. Tá mentindo sim. Cada desculpa é uma mentira. E no fim, quem vai parecer o manipulador da farsa sou eu. Você continua como o queridinho deles. Muito obrigado pela importância que você dá ao que sentimos um pelo outro.

— Você sabe que dou importância!

— O que você está fazendo é desrespeitoso comigo, com eles e, principalmente, com você mesmo! Você já conversou isso com o Lúcio?

— A primeira coisa que aprendi na terapia foi me respeitar.

Tuca deu um suspiro e continuou:

— Se assumir não é uma condenação. É passar a imagem real de quem você é. Você tem vergonha de quem você é? Ou tem vergonha de quem eu sou?

— Tuca, eu te amo. Mas eu não posso dizer que tenho orgulho de ser gay.

— Julinho, antes de ser gay, eu sou um homem, um cidadão! Trabalho, pago contas, levo a sério minhas responsabilidades, sou uma pessoa honesta e digna. Eu tenho orgulho de ser quem eu sou. Eu não quero me sentir constrangido por ser eu mesmo.

Julinho levantou-se, nervoso.

— Eu não vou falar com meus pais até eu me sentir seguro.

— Mas como se sentir seguro se você alimenta isso como se fosse um animal de estimação? O seu medo é quase um ser vivo!

— Tuca, você está estragando nossa noite, que até agora estava perfeita.

— E eu queria que continuasse perfeita com você ficando aqui!

— Mas eu não posso! É segunda-feira. Que desculpa eu vou dar?

Tuca se exaltou:

— Tá vendo? É disso que eu tô falando! Você parece que não pretende mesmo assumir nosso relacionamento.

Julinho calçou seus sapatos para ir embora.

— Onde você vai?

— Pra casa. Eu não vou ficar aqui pra ser acusado de coisas que eu não mereço.

— Eu não acusei você de nada. Nós estamos conversando.

— Não, Tuca. Nós estamos discutindo. E eu vim pra cá pra nós passarmos uma noite gostosa, que você acabou de estragar.

— Julinho, você tá sendo infantil. Eu só me abri com você.

— Você que bate na mesma tecla o tempo todo, e eu que sou infantil? Talvez eu seja muito novo pra você.

— Eu não falei nada disso. Você não é estúpido, você é inteligente. E idade não tem nada a ver com maturidade.

— Por que você não procura alguém como você? Mais maduro, que trabalhe, pague contas, seja decente, digno e que não minta pra ninguém?

— Você está distorcendo o que eu disse. Vamos conversar direito.

— Chega, Tuca. Eu entenderia se brigássemos por uma traição, por ciúme, por qualquer sacanagem, mas não por isso. Há anos você me cobra isso! Você e todo mundo!

— Eu não cobro. Eu quero que a gente seja livre.

— E eu não quero me assumir agora! — disse, a caminho da porta.

— Julinho, pense bem no que você está fazendo. Para de criancice!

— Já falei, Tuca, sinta-se livre para conhecer um adulto bem resolvido!

— Julinho... Se você for embora...

— Eu já fui! — disse, batendo a porta.

— Julinho! Julinho!


[1] Um ícone dos anos 80, um tipo de meia de lã sem pé. Tinha a função de esquentar as canelas nas academias de dança e ginástica. Ficou tão popular que se tornou acessório de moda do inverno brasileiro.

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