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Quando Um Certo Alguém 2 | Degustação

Foto do escritor: JR Thomas
JR Thomas
19 de set.
10 min de leitura

Atualizado: 20 de set.

1 - Debaixo do Mesmo Sol

 

Outubro de 1983.

Tuca parou de nadar, satisfeito, e olhou para trás para ter certeza de que Julinho não o tinha alcançado.

— Não era você que nadava melhor que eu?

— Eu só falei que sabia nadar — não que era um peixe!

— Eu não mereço um prêmio?

Julinho olhou bem nos olhos dele, que brilhavam de paixão.

— Você já ganhou o prêmio, meu filho. Olha aqui! Um gatinho lindo que te ama e até perde a competição só pra você ganhar... Porque sim, eu nado melhor que você! — provocou, rindo.

Tuca o encarou com carinho e balançou a cabeça.

— Você está parcialmente certo. Você é o melhor prêmio que eu já ganhei. Mas não me enrola: eu nado melhor que você!

— Vai se achando, vai...

Julinho parou e olhou pensativo para o terraço do clube. Tuca acompanhou o olhar e disse com carinho:

— Foi ali que tudo começou...

— Foi. Só dois meses e parece que já se passaram muitos anos. É clichê, eu sei, mas desde que a gente começou, tenho a sensação de sempre ter te conhecido.

— Ai, que cafona! — Tuca riu. — Mas ainda bem que foi você quem disse. Se fosse eu, ia aguentar meses de gozação.

Eles riram. Julinho, ainda olhando para o terraço, retomou:

— Eu nunca vi alguém tão nervoso quanto você naquela noite.

— Eu tava morrendo de medo de tomar um fora — disse com aquele olhar que, desde o “dia da trombada”, conquistara Julinho para sempre.

— E eu, de você dizer que não tinha nada a ver... ou sei lá o quê.

— E o Pedro me seguindo feito um carrapato!

Julinho pensou por um segundo.

— Eu até teria pena dele... se não o detestasse. Talvez até fosse amigo, se ele não tivesse comido meus chocolates.

— Isso foi imperdoável! — Tuca riu.

— Totalmente!

— Mas você disse que teria pena dele?! Quero ele bem longe. De mim e de você. Às vezes tenho até medo de que ele faça alguma coisa com você — disse Tuca, sério.

— Ah, Tuca, não viaja. Ele não é doido. É só mimado. Não tá acostumado a ouvir "não". Daqui a pouco ele esquece. Com a turma nova chegando, vai achar outra vítima. Nem vai se formar agora — tá cheio de DP[1]. Acho que fica de propósito, só pra não sair da faculdade e ter que trabalhar... — riu debochado.

— Sua risada é tão gostosa... Eu só não te beijo agora porque não tô a fim de correr da praia com um monte de gente atrás de nós.

— Nem brinca. A gente já causa estranheza só por estar aqui desacompanhado de garotas. Imagina um beijo público! As manchetes do jornal: “Beijo gay termina em linchamento!”

— “Pederastas apedrejados após beijo escandaloso na praia do Itararé!” — disse Tuca, teatral.

Riram alto.

— A gente é bobo... Faz piada da própria desgraça — disse Julinho, mais sério. — Vamos sair da água e voltar pro sol? Já tô com os dedos enrugados.

— Vamos. Tenho uma meta a cumprir — disse Tuca.

— Que meta?

— Igualar meu bronzeado ao seu!

— Ah, Tuca... Eu sou tão pálido quanto você! Isso aqui são anos de praia. Não dá pra se bronzear vindo só duas vezes por mês!

— Não? — fez cara de inocente.

— Não. Mas pelo menos aquele "amarelo hepatite" você já perdeu.

— Você é lindo.

— É. Dizem. — Julinho piscou, safado.

— O Guel dizia que você era bonitinho, mas que se achava.

— Falsa modéstia é ignorância, como diz minha mãe! Aliás, por que o Guel não veio com a gente?

— Quis ir pro Guarujá com o resto do pessoal.

— Deus me livre. Fila de balsa pra duas horas de praia? Tortura. Sílvio me falou, e eu fugi.

— Eu até encararia a fila... se fosse com você. Mas ficar aqui sozinho com você é tão melhor...

Tuca passou o bronzeador nas costas de Julinho com carinho.

— Que dupla de melhores amigos a gente tem, hein? Sílvio e Guel são duas peças raras. E de quebra tem Thales. Um “come-quieto”. Ele tinha sacado tudo da gente desde o dia da biblioteca.

— Amigos raríssimos. E te adoram. O Guel te adotou como irmãozinho. O Thales te admira. É nítido. E o Sílvio... se fosse “entendido”, com certeza ia querer ficar com você.

— Acho que não. O que sinto por ele é outro tipo de amor. Nunca me imaginei transando com ele. Dá pra entender?

— Dá. E ainda bem. Eu morria de ciúmes dele.

— Sério? Quando? Você mal olhava pra mim!

— Eu gostei de você desde o primeiro segundo. Você é que não percebeu.

— Errado. Eu não quis perceber. Não foi nada fácil aceitar que eu estava apaixonado por um homem.

Tuca sorriu. Mas Julinho ficou um pouco mais sério.

— O que foi? — perguntou Tuca.

— Nada. É que... os momentos com você são os melhores da minha vida. E isso, às vezes, me deixa triste.

— Estar feliz comigo te deixa triste?

— Não é isso. É... outra coisa. O que a gente sente um pelo outro é tão bonito e mesmo assim precisa ser escondido?

Tuca o ouviu em silêncio.

— As pessoas não conseguem — ou simplesmente não querem — entender o que foge ao padrão. Têm medo do julgamento, da religião, da cultura de massa... Tudo reforça isso. Não é fácil pra quem está enquadrado no padrão.

— Mas pra gente também não é fácil. A diferença é que, além da dificuldade, vem a piada, a humilhação e o escárnio. E isso dói. Falta boa vontade de enxergar a gente como gente.

— Eu entendo. Me sentia assim também. Mas comecei a melhorar quando contei pra minha família. Foi libertador. Devia pensar nisso.

— Eu nem imagino essa possibilidade! Você não conhece minha mãe. Se ela souber, é capaz de vestir luto. E meu pai... nem sei se entenderia.

— Ter contado me libertou, Julinho. Fez cair por terra a culpa, a vergonha e o sentimento de exclusão. E o posicionamento da minha avó foi essencial. Ela abriu os olhos dos meus pais.

Julinho, emocionado, escutava com atenção. Aquilo era bo-nito... e distante.

— É uma história e tanto. Mas não sei se comigo funcionaria assim. Eu não tenho coragem.

— Se eu não tivesse me apaixonado por você, talvez nem tivesse tido coragem de abrir o jogo. Estar apaixonado me deu força pra contar.

— Eu entendo completamente. Me sinto inseguro, sabe... Pra mim, o que a gente sente é bonito. É normal! Mas será que conversar de coração aberto é suficiente para convencer meus pais de que o que eu sinto não é anormal?

Tuca tentava ajudar:

— Você sente vergonha do que sente?

— Do que eu sinto não. Tenho vergonha do que eles possam pensar sobre o assunto. É como se a vergonha viesse do provável julgamento negativo deles. Assim como aconteceu na escola. Consegue entender?

— Totalmente.

— Me apaixonar deixou claro pra mim que não era errado, pecado, nem doença. Mas vai dizer isso pra quem te criou e projetou mil expectativas sobre você...

— Mas projetar expectativas nos filhos é errado. Por mais que os pais amem, querer que os filhos sejam o que eles sonharam é insano.

— Concordo, mas explica isso para um médico renomado que espera que o filho siga seus passos... Ou para um pai que quer netos, casamento, tudo igual. Errado ou não, é o que a maioria faz.

— Mas não é certo abrir mão de quem a gente é só pra agradar. Nem por amor, nem por gratidão.

— Mas como convencê-los de que não atender suas expectativas não é falta de amor?

— Com coragem. E fazendo.

— Quem te garante que, agora mesmo, não tem uma família em Minas Gerais me odiando? — brincou Julinho.

— Bobo. Ninguém te odeia. Inclusive querem te conhecer.

— Tuca, como você me coloca nessa fria? Eu posso ser “o pomo da discórdia”! A gente nem sabe se vai ficar junto! São só dois meses. Olha a responsabilidade que jogou nas minhas costas!

Tuca sabia como tirar as coisas de Julinho. Apertava os olhos e fazia cara de inocente:

— Tá bravo comigo?

— Chantagista! Não faz esse olharzinho, não. Claro que não tô bravo... Mas que ousado você, hein? Pra alguém que precisou de várias doses de uísque pra se declarar pra mim, você foi bem corajoso com sua família.

— É que eu não aguentava mais esconder. E queria, eu precisava falar de você. Eu tenho orgulho do que sinto por você!

Julinho continuava pensativo.

— Julinho. Você tem orgulho do que sente por mim?

— Eu amo o que sinto por você. Se eu tivesse sua coragem, talvez sentisse o mesmo orgulho. Mas, por enquanto, o que me domina é o medo.

— Sua família já sabe que eu existo? Como amigo, pelo menos?

— Não ainda. Você se apaixonou por um covarde — respondeu, baixando os olhos.

— Não! — disse Tuca, pondo a mão sobre o ombro do namorado. — É normal. Eu me sentia assim também. Um monte de gente como a gente sente isso. Mas eu queria poder te visitar como qualquer amigo da faculdade. Quero conhecer sua família.

— Eu também queria que meus pais te conhecessem. Eles vão gostar de você. Mas... você é mais velho. Pode causar desconfiança. E eu posso me trair. Se até o Thales percebeu, imagina meus pais!

— Mas sou mais um colega! A desculpa tá pronta. É só me tratar como trata o Sílvio ou o Thales.

Julinho pensou. Respirou. Hesitou.

— Eu vou pensar com carinho. Quem sabe a gente marca algo...

— Ótimo. Até porque preciso conhecer meus sogros antes da nossa semana na fazenda.

— O quê?! Tuca, vai com calma! Eu nunca fui namorado de ninguém... muito menos de outro cara!

— Você tem quase dois meses pra se preparar. Quero viver nossa história do jeito que ela merece.

— Você tá me saindo melhor que a encomenda... — olhou para ele com admiração. — Eu invejo sua coragem.

— É por nós dois. E por quem vier depois da gente. A mudança começa com a coragem de ser quem a gente é. A gente não tem culpa de nada.

— Quem dera um dia isso pudesse mudar.

— Um dia, pra nós dois, começa agora, Julinho. E eu quero começar direito com você.


2 – Mãe e Filho

 

Marta estava na cozinha, entretida em terminar o almoço, quando Julinho entrou e parou na porta, observando seu capricho:

— Sabe, mãe, é legal ver você fazendo as coisas com tanta dedicação. O termo “rainha do lar” deve ter sido criado observando mulheres como você.

Marta riu:

— Oi, meu filho, tudo bem?

— Tudo bem, sim — respondeu, ainda admirando a mãe. — Esse período já tá começando a ficar aquela loucura. Daqui a pouco já tem provas, trabalhos, projetos, monografias... O de sempre.

— Você tá bem, não é, Julinho?

— Eu tô sempre bem. Nem tenho motivos pra não estar.

— Também acho, mas no final do semestre passado você parecia tão desanimado... Agora parece outro. Anda até cantando pela casa, fazendo tudo sem reclamar de nada.

— Ah, mãe, é normal, né? Eu tô me preparando para o terceiro período, já me enturmei, consegui recuperar minhas notas, não fui reprovado em nenhuma matéria. Deve ser isso... — respondeu com naturalidade, matutando em como levaria Tuca para conhecer seus pais sem dar bandeira.

— Que bom! Se você está feliz, eu estou feliz! Não há nada melhor para uma mãe do que ver os filhos felizes...

— E você, mamãe? — Julinho perguntou, abraçando a mãe por trás.

— O que tem eu? — Marta respondeu, estranhando a pergunta do filho.

— Você está feliz? Não estou perguntando em relação à nossa felicidade. Tô perguntando em relação a você. Você e o papai saem tão pouco... Nem um cineminha vocês pegam mais.

— Ah, filho, depois de alguns anos de casamento, tudo muda. Antes dos filhos, a gente aproveita mais: namora, dança, viaja... Mas depois vêm as crianças e a vida gira em torno delas. O marido trabalha fora, a mulher cuida da casa, dos filhos... Não dá nem tempo pra se perguntar sobre a própria felicidade.

— Credo, mãe! Isso soa como uma tortura. Eu não vejo nenhuma realização pessoal nisso. Tudo gira em torno da família. Parece que vocês, mulheres, se anulam em função de casa, marido e filhos.

Marta riu do comentário do filho.

— Não é, não, filho. Isso é amor. A felicidade da mãe de família é o bem-estar de todos, é ver todo mundo bem.

O que ela definia como amor, ele via como sacrifício.

— Mas você se sente feliz, fazendo só isso? Quero dizer... tudo isso pra todos e nada por você?

— Digamos que, fazendo pra vocês, eu também estou fazendo por mim. Eu sou de outra geração, filho. Na época em que me casei com seu pai, as coisas eram bem diferentes. Contava-se nos dedos o número de mulheres na faculdade.

— É verdade... Fico imaginando como as minhas colegas da faculdade vão dar conta de ter família e trabalhar.

— Vai ser complicado. Principalmente com a falta de mão de obra para serviços domésticos. Tá dificílimo conseguir uma empregada. Agora virou artigo de luxo. A filha da Sofia, do primeiro andar, está grávida. Já largou o estágio.

— Tomara que ela consiga voltar.

— Ela vai dar um jeito. Nós sempre damos! As mulheres são mais fortes do que vocês pensam.

Julinho sorriu. Pensou se ela um dia teria essa força quando soubesse a verdade sobre ele. Olhou para ela com um misto de amor, admiração e culpa.

— Obrigado, mãe.

— De quê, meu filho?

— Por trocar sua vida pela nossa — disse Julinho.

Marta, como ele mesmo descrevia, pegava as coisas no ar. Ela colocou a colher de pau sobre a pia, foi até ele, o abraçou com carinho e afagou seus cabelos.

— Não me arrependo nem um segundo, Julinho. Faria tudo de novo, igualzinho.

Julinho devolveu o abraço e disse em tom carinhoso:

— Espero que eu nunca te desaponte, mamãe. Nem você, nem o papai.

Marta afastou-se, colocou delicadamente a mão sob o queixo dele e ergueu sua cabeça.

— Filho, tá acontecendo alguma coisa? Você sabe que pode confiar em mim, não sabe? Pode contar comigo para qualquer coisa.

Julinho abraçou-a novamente.

— Tá tudo bem, mãezinha. Já falei. Você é o máximo.

— Também te amo, filhote. Agora vai tomar seu banho e venha almoçar, porque daqui a pouco sua aula vai começar e não quero que você se atrase.

Ele obedeceu como fazia nos tempos de criança. Foi para o chuveiro e deixou a água lavar suas lágrimas de culpa. O que ele poderia fazer para assumir sua vida sem magoar os pais? Sobretudo Marta, que não merecia sofrer uma traição. E não se abrir com ela, para ele, já era uma traição.

Ele sabia que não fingiria ser quem não era, mas, por enquanto, omitir a verdade parecia o único caminho possível. Era o preço a pagar.


[1] (Dependência): Sistema que permitia ao aluno avançar para o semestre seguinte mesmo tendo sido reprovado em uma ou mais disciplinas. A matéria em dependência, no entanto, deveria ser cursada novamente e poderia impedir a matrícula em disciplinas futuras das quais fosse pré-requisito.

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